Ao falar de caça às bruxas, qual imagem te vem à cabeça automaticamente? Talvez as referências estadunidenses e europeias atreladas ao Halloween, fogueiras e enforcamentos… Agora, você consegue imaginar uma perseguição a uma acusada de bruxaria em Minas Gerais?
A caçada por pessoas – sobretudo mulheres – acusadas de cometer heresia contra os princípios cristãostambém passou pelo Brasil, na época da colônia, quando ainda se reportava a Portugal. É nesse contexto que a história de Luzia Pinta está inserida.

Os detalhes sobre a vida de Luzia são escassos, mas as informações comprovadas afirmam que ela nasceu em Luanda, Angola, e ainda muito jovem – entre os nove e doze anos – foi traficada para o Brasil. Por um longo período, permaneceu escravizada sob o senhorio de Manoel e João Pinto Dias, de quem comprou sua alforria anos depois. Luzia, então, adquiriu sua própria propriedade em Sabará, Minas Gerais, além de três escravos próprios – o que demonstrava certo poderio financeiro.
Em 1739, Luzia era livre e conhecida na cidade pelos rituais de cura e adivinhação, cercados por danças e batidas de tambores para embalar o transe espiritual, batizado no período de Brasil Colônia como calundu. As práticas não pertenciam a uma religião específica, mas era uma forma de categorizar os ritos de matriz africana de forma generalizada.
E então, veio a acusação: Luzia era denunciada ao Tribunal da Santa Inquisição por feitiçaria. Desde o século XIV, a bruxaria se tornou um crime e motivo de perseguições através da lei Super illius specula, criada pelo Papa João XXII. O motivo da denúncia não eram exatamente os calúndus que ela praticava, mas a possibilidade de existir heresia da fé cristã e um pacto demoníaco.
Antes de chegar ao Brasil, ainda em Angola, Luzia já havia sido convertida ao catolicismo, porém também era letrada nas práticas das religiões de matriz africana. Em Sabará ficou conhecida pelas habilidades como curandeira, seguindo rituais de adivinhação e cura de enfermidades através de uma ligação espiritual entre o corpo físico e a presença de um espírito que toma posse do corpo. A igreja católica não viu a prática do calundu com bons olhos e enviou Luzia Pinta para Lisboa, a fim de ser julgada.
Foram cerca de quatro audiências que buscavam não apenas condenar Luzia, mas também fazê-la confessar a culpa. O Tribunal da Santa Inquisição não obteve sucesso, afinal a curandeira tinha plena fé que seus rituais de cura advinham do poder de Deus e não de forças malignas. O próximo passo da “justiça” foi submeter Luzia à tortura, à qual ela continuou negando qualquer tipo de pacto demoníaco, feitiçaria ou abandono de fé.

Nada foi suficiente para absolvê-la. O destino de Luzia foi passar um ano em cárcere, até o dia do “Auto da fé”, em julho de 1744, na Igreja de São Domingos de Lisboa. Esse julgamento, que contava com a audiência de D. João V, 41 réus foram sentenciados e 8 condenados à fogueira, entre eles uma feiticeira. Luzia escapou da morte iminente, mas não foi inocentada. Sua pena pelas acusações de “leve suspeita de ter abandonado a fé católica” foi a proibição eterna de voltar para Sabará e mais quatro anos de exílio no Algarve. Depois disso, não existem mais informações sobre Luzia Pinta.
Sua história está retratada no livro A Dança da Serpente, de Paulo Stucchi, lançado em março pela Editora Jangada. O autor constrói um romance histórico que entrelaça as vidas de três mulheres: as gêmeas Cléo e Clarice, e Luzia Pinta em dois pontos de vista separados por dois séculos, ambas marcadas pela perseguição a mulheres com dons espirituais. A trama se passa em Sabará (MG) e conecta o Brasil colonial do século XVIII ao país sob o regime autoritário da Ditadura Militar em meados dos anos de 1970.

A Dança da Serpente investiga como o medo do desconhecido, em diferentes épocas, levou à marginalização e à punição de mulheres que desafiaram estruturas religiosas, políticas e sociais. Com uma narrativa crua, forte e comovente, Stucchi ilumina as vidas dessas mulheres, que se cruzam em um inevitável destino que as une através dos séculos em uma grande revelação. Intercalando ficção e fatos históricos com rara maestria, o autor descreve um mundo patriarcal que insiste em temer e punir mulheres que são perseguidas por carregarem “a chama do sagrado” dentro de si, ao mesmo tempo que dialoga com a misoginia dos tempos atuais.

