Oráculo Literário

Blog do Grupo Editorial Pensamento

  • Diz um mito egípcio que um grupo de sábios ocultistas se reuniu para tratar de um assunto seríssimo: o desaparecimento de sua sociedade. Era um destino selado e a última coisa a ser feita era repassar os conhecimentos sobre a Verdade oculta para as próximas gerações. A grande questão era: como?

    Um dos membros do culto sugeriu que gravassem a Verdade na pedra do templo mais venerável, outro propôs que esculpissem o metal mais resistente, um terceiro aconselhou que escolhessem o homem mais simples e virtuoso para passar a Verdade adiante, mas nada parecia o encaixe perfeito. Então, o mais jovem dos adeptos foi sagaz: “Vamos nos servir dos vícios, dos pecados, das paixões deletérias do homem para preservar o depósito de nossas doutrinas secretas.” Ele sugeriu um conjunto de figuras ilustradas em cartas, que quando jogadas, perpetuariam os saberes ancestrais. E assim teria nascido o Baralho do Tarô.  

    Para quem já é conhecedor de Tarô e Oráculos, possivelmente ouviu falar que a origem se deu no Egito Antigo, através dos ciganos ou das sociedades secretas medievais. A história documentada, no entanto, tem respostas diferentes sobre de onde vem o hábito de tirar cartas para obter revelações.

    A historiadora Isabelle Nadolny, bibliotecária da Biblioteca Nacional da França e autora do livro A História do Tarô, traz insights que remontam a origem do Tarô com base em dados históricos oficiais. Prepare-se para desconstruir alguns mitos e descobrir a verdadeira linha do tempo do tarô!

    1. O Tarô não nasceu como um oráculo

    Se você voltasse no tempo, por volta do século XV no Norte da Itália, e pedisse que alguém tirasse um jogo de tarô para responder às suas questões internas, ou até prever o futuro, a pessoa provavelmente não entenderia nada e ainda te acusaria de heresia.

    Isabelle Nadolny aponta, através de documentos de arquivos e registros históricos, que o tarô nasceu como um jogo de cartas de luxo para a aristocracia italiana.

    • O nome original: Ele não se chamava tarô, mas sim Carte da trionfi (Cartas de Trunfos).
    • Os primeiros baralhos: Os mais antigos que sobreviveram ao tempo são os famosos tarôs Visconti-Sforza, encomendados por duques italianos. Eles eram pintados à mão, banhados a ouro e serviam para o entretenimento das cortes de Milão, Ferrara e Bolonha.

    O veredicto da história: Durante seus primeiros 300 anos, as 78 cartas do tarô serviam para jogar um jogo de somar pontos através das cartas mais fortes da rodada, muito parecido com o truco moderno. Nada de adivinhação por aqui!

    2. Mas e os símbolos místicos?

    Se era só um jogo, de onde vieram figuras como a Papisa, o Pendurado, a Morte e o Eremita? Em sua pesquisa iconográfica, Isabelle Nadolny explica que essas imagens não eram códigos secretos de uma seita proibida. Elas refletiam a cultura, a arte e o pensamento do final da Idade Média e do Renascimento.

    As cartas retratavam virtudes cristãs (como a Força e a Temperança), figuras da sociedade (o Imperador, o Papa) e alegorias medievais comuns na época (como a Dança da Morte e a Roda da Fortuna). Era o mundo deles desenhado em pedaços de papelão.

    3. Quando começaram a tirar Tarô?

    Juntando todas essas informações, ainda paira uma grande questão: quando o tarô passou a ser tirado como um oráculo, para responder perguntas sobre o futuro desconhecido? A resposta exata nos leva ao final do século XVIII, na França.

    Foi nesse período que intelectuais e entusiastas do ocultismo olharam para o clássico Tarô de Marselha (que já era popular na França como jogo) e ponderaram que aquelas imagens escondiam segredos enigmáticos.

    A transição aconteceu em duas etapas principais descritas por Nadolny:

    Antoine Court de Gébelin (1781)

    Esse arqueólogo e clérigo francês publicou um ensaio afirmando que o tarô era, na verdade, um livro de sabedoria do Antigo Egito salvo da destruição de um templo, disfarçado de jogo de cartas. Embora não existisse nenhuma prova histórica disso, a ideia pegou e fascinou o público.

    Jean-Baptiste Alliette, o “Etteilla” (1783)

    Etteilla foi o verdadeiro primeiro tarólogo profissional da história. Ele criou o primeiro sistema prático de cartomancia com o tarô, desenhou um baralho modificado especificamente para a adivinhação, atribuiu significados fixos para as cartas verticais e invertidas e publicou os primeiros manuais de leitura.

    O misticismo diminui por causa disso?

    A pesquisa rigorosa de Isabelle Nadolny divide a história do tarô em três colunas frias e necessárias: o que é comprovado, o que é provável e o que é especulação.

    Descobrir que o tarô começou como um jogo italiano e só virou oráculo no século XVIII não tira a magia dele. Pelo contrário! Mostra que o tarô é um espelho cultural vivo, uma obra-prima de arte e psicologia que sobreviveu aos séculos se adaptando às necessidades humanas: primeiro para divertir, depois para guiar e ser um instrumento de internalização. 

    Como bem descreve Carl G. Jung, os símbolos são expressões vivas e imagens primordiais que conectam a consciência humana ao inconsciente. Por isso, mesmo originário de um jogo despretensioso, o tarô tem força simbólica para se conectar ao inconsciente e transformar a energia da mente.

    Para saber mais:

    A História do Tarô é uma pesquisa minuciosa que oferece aos leitores um panorama sobre as origens e a evolução do baralho ao longo dos séculos. Desde o berço da Antiguidade, onde o jogo e a adivinhação se entrelaçam, até a Idade Média, na qual também se ancora a simbologia dos naipes e das figuras, das obras do Renascimento italiano ao movimento ocultista francês do século XIX, a história é convocada a explicar o surgimento do tarô.

  • Você já parou para pensar em como surge uma editora de livros? E como ela pode se manter viva por 119 anos?

    A cartilha tradicional dos negócios diz que essa resposta envolve pesquisas de mercado, planos de contingência e planilhas de viabilidade econômica. Mas, se voltarmos no tempo,  há exatamente 119 anos, vamos descobrir que as maiores histórias da literatura e do mercado editorial não nascem da lógica. Elas nascem de algo muito mais poderoso: o delírio de uma pessoa visionária.

    Um operário que pensa grande

    Antônio Olívio Rodrigues

    São Paulo, 1907: a cidade crescia a passos largos, a energia elétrica era recém chegada, do café vinham os lucros e a urbe passava a criar intimidade com o ritmo frenético, mas onde mais de 80% da população ainda era analfabeta. É nesse contexto que o DNA do Grupo Editorial Pensamento se forma. 

    Antônio Olívio Rodrigues, um jovem imigrante português de 28 anos, poderia ser só mais um braço operando na cidade, mas suas ideias falavam mais alto. Durante o dia, a labuta era árdua, o relógio, dividido entre os turnos como operário, jardineiro e jornaleiro.

    Certa noite, perdido em seus próprios pensamentos, uma ideia vaga e imprecisa lhe vem à mente: o mundo precisava se tornar um lugar mais justo, com ideais menos materialistas, mais puros e nobres. O jovem operário de chão de fábrica que, até aquele momento, mal tivera contato com os livros, percebe que é hora de começar a estudar. E noite após noite, depois de uma dura jornada de trabalho, ele estuda sem cessar, debruçado sobre seus novos tesouros filosóficos.

    O caminho é pavimentado

    Letrado à base de autodidatismo, Antônio apostou tudo na tradução de Magnetismo Pessoal, de Heitor Durville. No momento de retirar os exemplares da gráfica, ele fica desempregado. Desistir não era uma opção, então Antônio penhora as poucas jóias da família para conseguir os últimos mil-réis e fechar a conta. 

    As expectativas do editor em formação eram altas e, à princípio, não se cumpriram, pois a recepção da obra foi puramente hostil: frieza dos jornalistas, desconfiança do público, acusações de bruxaria e antipatia por parte dos kardecistas. Ainda assim, Antônio trabalhou em suas estratégias de marketing antes mesmo de elas serem cunhadas: ele mesmo saía distribuindo folhetos nos cafés e bares do centro de São Paulo, acumulando sozinho as funções de redator, tradutor, revisor e remessista.

    Antônio sabia que havia de vencer em algum momento, por isso, cravou a perseverança que ressoa nas fundações da editora até os dias de hoje. Rapidamente, a Pensamento tornou-se a precursora do gênero de autoajuda e autoconhecimento no Brasil, publicando autores orientais e esotéricos décadas antes de virarem tendência de mercado.

    Capa da segunda edição de Hei de Vencer

    Se a audácia de Antônio Olívio plantou as sementes do grupo, foi a força de seu genro, o professor Arthur Riedel, que consolidou uma das filosofias mais marcantes da história da editora. Arthur transformou uma superação pessoal contra uma profunda crise em um mantra nacional: “HEI DE VENCER!”. Inicialmente avesso a publicar suas ideias, suas palestras magnéticas na “Escola da Vida” foram registradas às escondidas por seu filho, Diaulas Riedel, dando origem ao livro homônimo lançado em 1952. Através da célebre e pitoresca parábola das duas rãzinhas que caíram no leite, Arthur Riedel ensinou gerações de brasileiros a perseverar diante do fatalismo.

    Geração após geração, esse ideal foi expandido. Seu neto, Diaulas Riedel, assumiu a redeas nos anos 1940, ajudando a fundar a Câmara Brasileira do Livro e criando, em 1956, o selo Cultrix, uma matrix cultural,  trazendo para o catálogo nomes como Norman Vincent Peale, estudiosos de Carl Gustav Jung e grandes intelectuais da literatura na área das ciências humanas.

    Para navegar por novos mares literários, em 2011 o grupo fundou a Editora Jangada, um selo jovem e dinâmico que nasceu com a missão de trazer o melhor da ficção contemporânea, dos romances históricos e da fantasia épica para o público brasileiro. Com um catálogo repleto de best-sellers internacionais e narrativas visuais marcantes, a Jangada expandiu o nosso legado, provando que o prazer de contar grandes histórias continua navegando firme rumo ao futuro.

    Assim nasce uma editora de vanguarda

    Muito antes de Philip Kotler oficializar as estratégias oficiais de marketing, Antônio Olívio Rodrigues os colocava em prática no Brasil, em 1907, estratégias essas que são usadas na divulgação de livros até hoje. 

    Edição de 1913 do Almanaque do Pensamento

    A revista O Pensamento foi criada, uma publicação mensal que servia como plataforma de divulgação de livros. Para atrair assinantes, o editor oferecia um plano anual que dava como brinde um exemplar de Magnetismo Pessoal. O Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (1909) era quase um clube do livro da época, onde os manuais e rituais dos membros advinham dos livros impressos pela editora. Nessa fase, a livraria da editora foi aberta na Rua Senador Feijó, nº 1A.

    Criado para contornar a dificuldade de distribuição geográfica nos rincões do Brasil, o Almanach d’O Pensamento nasceu em 1912 com tiragem inicial de 20 mil exemplares. O livreto continha previsões astrológicas e ensaios esotéricos e servia como catálogo de vendas por correspondência e existe até os dias de hoje como guia anual para os esoteristas. 

    119 anos de pensamentos em transformação

    O Grupo Editorial Pensamento não foi criado apenas para imprimir palavras em papel, mas para cumprir com o propósito de ser um farol de ideias e um agente ativo em um mundo em constante mutação. Vencemos o tempo, vencemos desafios e obstáculos todos os dias e há 119 anos seguimos comprometidos com o mesmo intento de Antônio Olívio Rodrigues de tornar o mundo um lugar melhor, pautados no pioneirismo que nos trouxe até aqui. 

    Agradecemos a cada leitor, livreiro, autor e colaborador que faz parte desse seleto grupo de empresas que desafiam o tempo e celebram mais de um século de paixão pelos livros.