
Um dos filmes mais comentados e aguardados dos últimos tempos, A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan, divide opiniões. De um lado, há quem defenda que o épico é um exercício de interpretação do diretor, que tem liberdade para reimaginar a obra de Homero. De outro, a linguagem hiper-realista escolhida por Nolan não convence parte do público para adaptar um dos pilares da ficção e do fantástico ocidentais.
Uma das críticas mais recorrentes ao filme, porém, é a dificuldade de Nolan em dar profundidade às personagens femininas. Nas palavras de Emily Wilson, primeira tradutora de A Odisseia diretamente do grego para o inglês, “A Penélope de Nolan não tem sonhos (…) vista principalmente através do véu de uma cenografia engenhosa que separa os aposentos femininos do salão principal. No entanto, o roteiro não lhe dá nada para fazer além de ansiar por Matt Damon.”

Homero tampouco foi um autor progressista nos moldes atuais. Suas deusas, ninfas, mortais e feiticeiras são figuras complexas, mas frequentemente enquadradas em categorias morais. Era um homem de seu tempo: a virtude feminina estava associada à beleza, ao lar e à inteligência. Atena e Penélope são exaltadas como modelos de sabedoria e fidelidade, enquanto Circe e Calipso representam os perigos do poder erótico feminino.
Como uma das obras fundadoras da literatura ocidental e principal referência da mitologia grega ao lado da Ilíada, a Odisseia sempre inspirou novas interpretações. Entre elas está a da escritora, radialista e classicista britânica Natalie Haynes, que se especializou em dar voz às mulheres apenas pinceladas pelos textos clássicos. Em seus livros de ficção e não ficção, ela desloca essas personagens das margens para o centro da narrativa.
Conheça os títulos da autora e os mitos gregos que os inspiraram

Mil Navios para Tróia — A Guerra de Troia
Embora a Odisseia aconteça após a queda de Tróia, é a Ilíada que narra o conflito entre gregos e troianos. Em Mil Navios para Tróia, publicado pela Editora Jangada, Natalie Haynes reconta essa história pela perspectiva de Helena e das demais mulheres da guerra.
No meio da noite, Creúsa — esposa de Enéias, protagonista da Eneida de Virgílio — desperta e encontra sua cidade consumida pelas chamas. Após dez anos de conflito, Tróia finalmente cai. Em uma narrativa poderosa, Haynes coloca mulheres, garotas e deusas no centro de um dos maiores épicos da literatura ocidental, revelando a guerra sob uma perspectiva exclusivamente feminina.
O Jarro de Pandora — As heroínas da Grécia
Neste livro de não ficção, Haynes apresenta, em capítulos curtos e acessíveis, o perfil de diversas personagens femininas da mitologia, como Penélope, Clitemnestra e Helena — três mulheres que aparecem em A Odisseia de Nolan de forma bastante limitada, apesar de possuírem trajetórias próprias.
A autora questiona por que é tão natural tomar a narrativa masculina como protagonista e relegar as mulheres às margens da história. Afinal, se Odisseu conseguiu retornar a Ítaca, foi também graças às escolhas e à inteligência de Penélope.
Olhar Petrificante — Medusa
A história de Medusa começa antes de ela se tornar um monstro. Única humana entre os personagens centrais do mito, ela é violentada por Poseidon dentro do templo de Atena. Em vez de punir o deus, Atena transforma Medusa em uma criatura condenada à solidão: qualquer pessoa que cruzasse seu olhar seria transformada em pedra. Nem mesmo seu exílio encerra seu sofrimento, já que Perseu passa a persegui-la para tomar sua cabeça.

Em Olhar Petrificante, Natalie Haynes subverte essa narrativa ao perguntar: quem é, de fato, o monstro? Ao devolver a Medusa o benefício da dúvida, a autora convida o leitor a enxergar a personagem também como vítima.
Deusas Poderosas
A Atena retratada por Christopher Nolan é serena, sábia e discreta — bastante diferente da deusa apresentada por Natalie Haynes neste livro de não ficção.
Em Deusas Poderosas, a autora revisita as principais deusas do Olimpo sem suavizar suas contradições. Atena é estrategista de guerra, interfere diretamente no destino de Odisseu, é orgulhosa, impulsiva e, por vezes, injusta. Como os próprios deuses gregos, é uma personagem cheia de camadas.
Coração de Ouro e Sangue
Medeia talvez seja a personagem da mitologia grega que menos recebeu oportunidades de redenção. Enquanto deuses, heróis e semideuses frequentemente têm sua violência relativizada, a fúria feminina costuma ser tratada como imperdoável — e é justamente essa lógica que Natalie Haynes questiona.
Sobrinha de Circe — outra personagem pouco explorada no longa de Nolan —, Medeia se apaixona por Jasão, desafia os deuses, e sacrifica tudo para ajudá-lo a conquistar o Velocino de Ouro. Quando é traída e descartada, reage com uma violência extrema, tornando-se uma das figuras mais controversas da mitologia.
Último lançamento de Natalie Haynes pela Editora Jangada, Coração de Ouro e Sangue reconta a história de Medeia a partir da tragédia de Eurípides, reconstruindo essa personagem de maneira inédita. É uma leitura essencial para quem deseja compreender as nuances do poder, da vingança e do preço de seguir o próprio destino.

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